Cicatrizes compartilhadas: como é viver na rua sendo mulher trans

Ninguém chega à rua da noite para o dia. Ela, geralmente, é o produto final de um enredo que levou anos, meses, dias para se desenrolar. O de M. começou quando precisou sair de casa para ser M. Ela tinha dezessete anos e seis meses. Fez as malas na casa dos pais, em Rio Grande, e partiu com destino a Caxias do Sul. Não conseguia mais responder pelo nome que estava na certidão de nascimento, nem pelo pronome masculino. A mãe deu de presente o primeiro sutiã da filha. O pai, porém, não estava preparado para entender a transição. Por isso, ainda que a família dissesse que podia ficar, ela sabia que precisava ir.

Na cidade nova, a 436 km de casa, M. ganhou corpo de M. Colocou silicone, deixou o cabelo crescer, começou a tomar hormônios, mudou a voz. Para bancar o tratamento, a comida e uma cama de hotel, começou a trabalhar com prostituição. Profissão a qual 90% das mulheres trans do Brasil recorrem para sobreviver, segundo dados da ONG Transrevolução. Quando Caxias já não parecia o lugar certo, partiu outra vez. Por alguns anos, seu endereço foi o interior de Santa Catarina, mudando de uma cidade para outra, até voltar ao Rio Grande do Sul e parar em Porto Alegre.

M. conta que trabalhando nas ruas, o uso ocasional de drogas foi ficando cada vez mais frequente. Em Porto Alegre, o dinheiro da prostituição na noite era mais fácil, o cara que vendia estava mais próximo. Era lei de mercado: oferta e consumo. “Até que chegou um momento que não consegui mais. Não consegui mais pagar hotel, não consegui mais me estabilizar. Vou para onde? Fui para a situação de rua. Ficava uns dias na rua, ficava uns dias no albergue. Depois disso, nunca mais consegui me organizar ou conseguir uma casa. Sempre nesse processo de sobe e desce”.

No dia em que M. senta em uma sala do centro de Porto Alegre para contar sua história, o sobe e desce já leva mais de dez anos. “Como é que eu cheguei na rua?”, ela repete para si mesma a pergunta que abriu a conversa. “A gente está aqui pra falar sobre as dificuldades que a mulher trans passa na rua. Pra mim, foi sempre meio que tranquilo, sabe?”, diz ela explicando que “a galera da rua” aprendeu a respeitar mulheres trans e travestis.

“Acho que pra homem a acessibilidade e aceitação é maior”
O “meio que tranquilo”, no entanto, vem acompanhado de uma série de “mas”, que ela vai emendando à afirmativa, entrando em contradição, sem perceber. “Acho que pra homem a acessibilidade e aceitação é maior”. Apesar de viverem as mesmas condições, M. reconhece que certas coisas que acontecem a uma mulher como ela, em situação de rua, homens nunca terão de passar. “No início é bem difícil. Comer é uma coisa bem difícil. Porque é diferente de um menino chegar e bater palma em uma casa, dialogar e pedir um rango. É diferente o olhar das pessoas, chegar uma trans, bater [na casa] e ‘pô, uma trans’. O olhar das pessoas é outro. Essa é uma das dificuldades. O preconceito é grande. Principalmente, com as trans em situação de rua”.

S. chegou à rua porque a família teve dificuldades em aceitar sua identidade como mulher.
‘Acham que tu é um objeto’

Os relatos mais recorrentes entre mulheres em situação de rua, tanto entre cisgêneros – aquelas que se identificam com o gênero com o qual nasceram – quanto entre trans e travestis, são de assédio e abuso. “Acham que tu vai fazer tal coisa, porque tu está sozinha e está vulnerável na rua. Como se tu fosse obrigada a fazer [qualquer coisa]”, diz S., amiga de M., também uma mulher trans. “Acham que por tu ser trans e por estar na rua, tu é um objeto e tem que ser usado porque está naquela situação. Já tive que bater boca e me pegar com muita gente na rua, por achar que ele vai chegar e fazer o que bem entende. Não é assim!”, complementa M.

Por acharem tudo isso, M. diz que já foi “forçada” a fazer coisas que não queria. Ela não usa a palavra que configura o crime – estupro. “Foi a pior coisa da minha vida. O cara mostrar a faca e dizer que vai me matar. É uma coisa que eu tento esquecer e procuro nem lembrar”. A mesma história se multiplica entre amigas e companheiras dela.

“O cara mostrar a faca e dizer que vai me matar. É uma coisa que eu tento esquecer”
Para garantir que não aconteceria de novo, M. fez o que muitas mulheres em situação de rua – cis, trans, travestis – fazem quando se veem tendo de se defender da possibilidade de violência sexual a qualquer momento. Arrumou um companheiro. Os dois se conheceram em um albergue e, “ao mesmo tempo em que foi ótimo, foi péssimo”. Na pele, ela mostra as lembranças do relacionamento que terminou depois de quatro anos entre idas e vindas: as cicatrizes de duas facadas. Uma delas passa perto demais da aorta.

“Mas são consequências de um relacionamento assim… Era demais. Ele era muito obsessivo, achava que mulher é objeto, tinha que ser dele e de mais ninguém”. Ainda assim, estar com um homem, ser a mulher de um homem só, também trazia uma sensação de segurança, difícil de se conseguir tendo corpo de mulher e vivendo na rua sozinha. “Eu gostava dele no início. Gosto dele até hoje, embora seja um sem-vergonha. Se perguntasse, ‘mesmo depois de duas facadas?’. Mas é uma coisa que no coração a gente não manda, sabe?”.

A amiga S. sabe. Foi M. quem apresentou ela ao marido. Os dois ficaram cinco anos juntos. Ele morreu atropelado no dia de Natal, no ano passado, enquanto caminhava com ela pelo acostamento de uma rodovia em Sombrio, Santa Catarina. O namorado estava bêbado. “Nesses cinco anos com ele, eu tive casa, eu tive conforto. Não tive luxo, mas também não me faltou nada. Desde o momento em que ele se foi, eu aprendi muito. Me sinto que nem uma criança, engatinhando sozinha”, conta S., que completou 31 anos quinze dias depois do acidente. “Quando eu tinha ele, eu tinha segurança. Eu sabia que, ao lado dele, eu não ia sofrer agressão, abuso, assédio. Até porque muitos tinham medo dele. Um misto de medo com respeito”.

“Tenho algumas lembranças dele também”, diz, enquanto começa a apontar cicatrizes pelo corpo
Durante o tempo em que ficaram juntos, o companheiro de S. chegou a ter um emprego com carteira assinada em uma firma de Gravataí. O salário foi suficiente para que pagassem o aluguel de uma casa e vivessem bem durante um ano e meio. “O uso [de drogas] dos dois lados – ele com o crack – foi o que estragou muito a nossa relação. Tenho algumas lembranças dele também”, diz, enquanto começa a apontar cicatrizes pelo corpo. Memória de golpes de faca. “É a herança que ficou. Apesar de tudo, sinto muita falta. Foi uma pessoa que me mostrou muitos valores. Eu aprendi muita coisa com ele. Aprendi a ser gente. Aprendi a não deixar ninguém passar por cima de mim. Na hora da morte dele, ele teve tempo de dizer pra mim que me amava. Isso ficou forte dentro de mim”.

M. tinha dezessete anos e seis meses quando se viu obrigada a deixar a casa dos pais, em Rio Grande.
Dói mais que um tapa

Assim como a grande maioria das mulheres trans e travestis em situação de rua, S. chegou à rua porque a família teve dificuldades em aceitar sua identidade como mulher. Filha de famílias evangélicas, tanto por parte da mãe biológica, quanto da mãe que a adotou com um ano de idade, ela foi expulsa de casa pelo pai. A situação que já era difícil, piorou por causa do uso de drogas, como cocaína e crack, segundo ela. As drogas foram, ao mesmo tempo, o escape e o que fez tudo sair de controle rapidamente. Com 15 anos, ela decidiu que não queria mais responder pelo nome masculino. Com 18, se viu no espelho como mulher trans. Com 22, passou a primeira noite na rua.

A primeira parada foi o Albergue Municipal de Porto Alegre. “Foi um preconceito muito grande, porque eu não conhecia ninguém. Era tudo totalmente estranho. Eu estava totalmente vulnerável, né? Já apanhei por ser trans, já sofri preconceito. Hoje, graças a Deus, não sofro mais”, diz ela, sobre os comentários que tinha de engolir a seco. “Aquela discriminação de ‘o que essa bicha faz aqui no meio’, ‘o lugar de vocês não é aqui’. Quando tu pede pra tragar um beck, é ‘não sei onde tu colocou a tua boca’, ‘como é que tu vai fumar o meu cigarro, se não sei onde tu botou a tua boca’. Sabe aquelas brincadeirinhas? Dói mais que um tapa”.

No Cadastro e Mundo da População Adulta em Situação de Rua de Porto Alegre, uma pesquisa feita pela Fundação de Assistência Social (Fasc) em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), divulgada em dezembro do ano passado, os termos “trans”, “transgênero” ou “travesti” não aparecem nenhuma vez. Não existem dados sobre quanto a população trans e travesti representa entre a população de rua, nem de Porto Alegre, nem do Rio Grande do Sul. E raramente há algum dado nacional.

“Acham que por tu ser trans e por estar na rua, tu é um objeto e tem que ser usado porque está naquela situação”
A ativista e travesti Marcelly Malta, presidente da ONG Igualdade, lembra que, no Rio de Janeiro, um levantamento recente apontou que trans e travestis representariam hoje 34% das pessoas vivendo na rua, na capital fluminense. Ela conta que sua ONG estava trabalhando em um levantamento similar, em Porto Alegre, junto à Prefeitura. A troca de gestão, no começo do ano, porém, suspendeu o projeto.

Marcelly Malta, presidente da ONG Igualdade. Foto: Guilherme Santos/Sul21
“A gente tinha muito interesse em saber sobre isso, porque há dois anos estávamos fazendo esse trabalho, encaminhando para abrigos”, explica ela. Marcelly diz que a única pesquisa recente, feita aqui, que ajuda a entender a realidade da população de trans e travestis que vivem na rua, era relacionada à saúde e não tinha a condição de moradia como foco. “Eu não sei exatamente quantas são, mas tem muitas travestis [nas ruas]. A gente fez um projeto que se chamava ‘Pesquisa de Divas’, onde trabalhamos a questão do HIV, sífilis, hepatite B e C, onde vieram mais pessoas em situação de rua, aqui na Igualdade”.

M. diz que a falta de serviços focados em atendê-las é um dos piores problemas em Porto Alegre e Região Metropolitana. Embora a maioria dos albergues entenda os direitos delas e as encaminhem a quartos femininos, ainda há locais que não aceitam receber pessoas trans. Outro problema é a falta de oportunidades no mercado de trabalho. Além de deixar a prostituição como única opção, ainda afasta as chances de conseguirem um teto.

“Hoje em dia, o que tu vê para uma mulher trans? Beleza”, pergunta S. “Ou telemarketing, que ninguém nos enxerga. Ou quadra [prostituição]”, adiciona M. “Essa, no momento, é a minha opção. Eu sou profissional do sexo, sou cabeleireira formada e não consigo emprego. Por quê? Por estar em situação de rua”, diz a amiga. “É, a questão do comprovante de residência pesa muito. Eu tenho o segundo grau completo e sou formada em magistério e é muito difícil conseguir um emprego, por questão de comprovante de residência. Se tu dá um endereço de um albergue, tá fora. ‘A gente liga na semana que vem’. Nunca mais”, relata M.

Ela ainda tem outro fator, sobre o qual raras vezes fala: é soropositiva. Sabe que pegou o vírus HIV nas ruas, em 2013, mas não sabe de quem. “Nem todo mundo sabe, porque eu não abro isso pra todos. As pessoas que sabem agem de outra forma, ainda tem o preconceito com a doença, sabe? Eu não gosto de abrir isso”.

As dificuldades da rua, M. transformou em experiência. Vivendo em um abrigo municipal da Região Metropolitana, em 2016, ela trabalhou por um tempo como facilitadora social, projeto da antiga Secretaria de Assistência Social, ajudando nas abordagens a pessoas em situação de rua. Os facilitadores, como ela, que eram pessoas que seguiam ou já haviam vivido na rua, ajudaram a convencer funcionários a abandonar luvas e máscaras e os ensinaram a se aproximar quando conversam com as pessoas.

No último Ano Novo, M. ligou para casa. Ela confessou à irmã que as coisas não estavam fáceis, mais uma vez. Ainda assim, diz que nunca quis voltar a viver em casa, porque prefere que a família não sofra com ela. A irmã sugeriu que ela se internasse em uma clínica para tratar o vício. A resposta foi a mesma que já havia dado outras vezes: depois de três internações, precisava aprender um jeito de parar por si mesma. “Isso vem no meu tempo. Vai chegar o meu tempo de dizer que chega”.

S. só concorda. “Eu vejo que não é a vida que é uma escola. A rua é uma escola. Aprendi muito. Aprendi a ser humilde”, diz ela, antes de virar pra amiga. “Conheci a M., que considero minha irmã do coração e ela sabe disso. Sempre tive o maior apoio nela e ela em mim”. A uma hora do final da tarde, de um dia de semana, as duas se despedem rápido e apuram o final da entrevista. Tem trânsito, tem trem no caminho, tem horário no albergue, tem trabalho pela frente.

Por Fernanda Canofre (SUL 21)

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